sábado, 21 de abril de 2012

Você é a favor ou contra o aborto de anacéfalos (fetos sem cerebro)?

Calma, calma. Não responda já. Leia este POST antes e tente me responder depois.

Me deu um trabalhão escrevê-lo e você vai responder assim de sopetão?


Dividi em alguns tópicos, mas ficou longo porque o assunto é delicado, mas por favor leia por completo.

Hoje, dia 12 de Abril de 2012 o Supremo Tribunal Federal julgou que mulheres que interrompem a gravidez de fetos formados sem cérebro, os chamados anencéfalos e os médicos que praticam tal procedimento não estão cometendo crime.

Nos dias 10,11 e 12 de Abril uma enchente te comentários a favor e contra tal julgamento povoou a internet. No twitter os comentários usavam a hashtag #afavordavida e depois de serem TT (Top Trend – assunto mais comentado do momento) sumiram da classificação talvez por algum critério de corte da ferramenta e não por desinteresse dos usuários.

Ser a favor ou contra entende-se uma série de implicações, tanto para um lado como para outro. Mas vi que, salvas exceções a maioria das argumentações eram baseadas meramente em dogmas e nenhum censo critico. Mesmo os religiosos argumentam sem usar de seu princípios fundamentais para repudiarem tal assunto.

O Supremo Tribunal Federal.


O primeiro equivoco dos argumentadores, dos quais selecionei alguns abaixo, é acreditar que foi  
aprovada a lei do aborto no Brasil. Não é isso.


O Supremo Tribunal Federal é um dos três poderes do estado, ele pertence ao poder jurídico, sendo a mais alta cúpula jurídica do Pais. Cabe ao STF julgar ações que foram votadas em tribunais municipais ou estaduais e em função de uma das partes – Obviamente a que perdeu – não concordar com a decisão, apelar para uma corte superior. A coisa vai subindo até chegar no Supremo Tribunal Federal. Também passam pelo STF casos que dizem respeito a todo o pais  e não apenas locais.[leia mais aqui]

Além destes casos, chamados concretos, o STF julga casos em que se questiona se dada lei não fere a constituição, que é o caso dos fetos anencéfalos.

O STF não é formado, como os outros poderes, por pessoas de várias formações eleitas por voto popular e sim por 12 ministros que são juízes indicados pelo presidente da Republica quando ocorre uma vaga por aposentadoria ou morte de seu ocupante.

Veja que este equivoco é cometido nestes posts, onde o usuário diz não ser representado pelos ministros, numa clara confusão entre deputados, senadores com os ministros.



Ministros não representam no mesmo grau que o poder legislativo, pois como disse acima, não são eleitos pelo voto popular. Obviamente que de certa forma eles representam o povo em suas aspirações e não estão acima deste, mas não entrarei nesta discussão filosófica.

Se o STF não aprovou a lei, o que ele fez então?


Como disse lá em cima, o STF julga, entre outras coisas, se uma dada lei ou intrerpretação de uma lei está em acordo ou desacordo com a Constituição Federal. Isso não é nada, mas nada fácil. Tanto é que eles discutem muito, estudam muito e muitas vezes, quase sempre, não tem decisão unanime.

A Constituição Federal é um conjunto de leis fundamentais de um pais. Nela estão contidos os direitos fundamentais de todo cidadão. Ela é relativamente curta e de leitura relativamente simples. A atual foi votada em 1988, sendo uma constituição exemplar em democracia respeitada no mundo todo.

Alguns países tem constituições mais antigas e mais curtas, como a americana, procure ler sobre ela.

Bem. O que aconteceu agora, neste caso dos fetos é que uma dada instituição, a Confederação Nacional de Saúde, registrou em 2004, há 8 anos portanto, uma pergunta em síntese e de forma didática o seguinte: “Senhores ministros, a proibição de interrupção da gravidez de fetos sem cérebro fere ou não a constituição?”

É uma encrenca brava porque a constituição não diz que o aborto é crime no Brasil, mas diz em seu artigo número 5:

Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes

Note que a Constituição deixa uma brecha de entendimento ao dizer que é assegurado o direito a vida, mas não define quando esta começa.

Quem define o que é aborto e que este é crime no Brasil é o código penal, que é bem mais antigo, é de 1940. O código penal, diferente da constituição, é um conjunto de leis que diz o que é crime e quais as punições.

Em seus artigos 123,124,125 e 126 o código penal é claro que aborto é crime e quem auxilia esta prática também comete crime.

Art. 124 - Provocar aborto em si mesma ou consentir que outrem lho provoque:
Pena - detenção, de 1 (um) a 3 (três) anos.
Aborto provocado por terceiro
Art. 125 - Provocar aborto, sem o consentimento da gestante:
Pena - reclusão, de 3 (três) a 10 (dez) anos.
Art. 126 - Provocar aborto com o consentimento da gestante:
Pena - reclusão, de 1 (um) a 4 (quatro) anos.

Em seguida dá duas exceções:

Art. 128 - Não se pune o aborto praticado por médico:
Aborto necessário
I - se não há outro meio de salvar a vida da gestante;
Aborto no caso de gravidez resultante de estupro
II - se a gravidez resulta de estupro e o aborto é precedido de consentimento da gestante ou, quando incapaz, de seu representante legal.


Se você parar de ler o POST aqui, você deve estar convencido que o aborto destes fetos sem cérebro fere a constituição e o código penal, certo? Então não desista, leia até o fim para ver o outro lado da moeda.

Bem ai vem a segunda confusão. Fetos sem cérebro não tem a menor chance de sobreviver fora da barriga da mãe. Não existe sobrevivente, o bebê morre em no máximo poucas horas após o parto.



A formanda de direito Aline Tammy Martinez ABE escreveu um trabalho entitulado “SOFRIMENTO DAS GESTANTE DE ANENCÉFALO” onde ela analisa algumas questões psicológicas, sociais e físicas de mulheres grávidas de fetos sem cérebro. Destaco um trecho:

Débora Diniz produziu um documentário que conta a história de uma mulher do sertão nordestinho que espera o um anencéfalo, chamada Severina. O documentário acompanhou toda a trajetória dessa guerreira, na tentativa de conseguir a autorização judicial para antecipar o parto. Durante esse trajeto ficou demonstrado o estado emocional em que Severina se encontrava.
A gestante relatou a documentarista que sentia medo e não entendia o que estava acontecendo consigo. Apesar de todo apoio que recebeu do marido, Rosivaldo, Severina foi perdendo a esperança de um dia interromper sua gestação, sua saúde psicológica estava visivelmente perturbada. No sétimo mês de gestação, a autorização jurídica finalmente foi conseguida e antes de entrar no hospital para os procedimentos médicos necessário, Severina foi a uma loja que vende artigo infantis e de lá saiu como uma única peça, que foi usada para enterrar seu filho.
No momento em que entra no hospital, os anestesistas de plantão se recusam a medicar a paciente por serem contra o aborto, nessa hora é possível ver o cansaço da gestante em continuar a luta.
Finalmente chega a hora do parto e a mãe pede para ver o filho, que não tinha a calota craniana, Severina começa a chorar, pois finalmente entendeu que seu filho estava morto. Segundo a própria Severina o momento mais difícil foi explicar a seu primogênito que o irmão, pelo qual ele tanto ansiava não havia voltado com ela da maternidade.”

Além do fator psicológico narrado, Aline ainda aponta fatores médicos que atingem as grávidas de fetos sem cérebro e riscos reais as mães, uma vez que o bebê não “ajuda” para nascer – para usar um termo de fácil entendimento – prejudicando a saúde da mãe, podendo deixá-la estéril permanentemente ou mesmo de morrer durante o parto.

Daí a encrenca. Voltando a constituição, ela garante o direito a saúde:

São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição

E o que é saúde? A constituição não define, mas a Organização Mundial de Saude ao qual o Brasil aceita suas resoluções – é signatário com se diz, define:

saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doenças”
Percebeu o tamanho da encrenca? Os profissionais de saúde devem garantir saúde a população, mas mulheres que engravidam e descobrem que o feto não tem cérebro, estão condenadas a ficar sem plena saúde?

Vem então mais uma confusão. Alguns pais que passaram por esta situação, entraram na justiça pedindo autorização legal para o aborto, alegando riscos a saúde da mãe e direito a dignidade. Note que são pessoas de respeito e que fizeram as coisas como devem ser feitas, do ponto de vista legal, pois não recorreram a uma clinica de aborto clandestina ou a remédios populares.

Estes pedidos demoraram tanto para serem atendidos que quando a resposta veio, o bebê já havia nascido e fatalmente morrido.

Então o que muda com este parecer do STF? Bem o que muda é que qualquer pessoa que estiver grávida de um feto sem cérebro terá maior rapidez em fazer um pedido de aborto. Nenhuma lei foi modificada, apenas o STF entendeu que o direito a dignidade e saúde está acima de um feto que não sobreviverá de forma alguma na vida fora da barriga.

Veja que a coisa é tão complicada que não foi uma votação unanime e dois ministros votaram contra. Um deles entendeu que as leis atuais não contemplam este fato e que os deputados deveriam criar, ou não uma lei especifica.

A Religião:

Agora por último e não menos importante entra e religião. Na maioria dos críticos a esta interpretação do STF é ligada a religião, seja católica, protestante ou espírita


Perceba que a religião ainda tem seu fator de dar apoio a estas pessoas e fieis podem optar, em nome da fé a não abortarem mesmo nestes casos. O aborto de fetos sem cérebro não é obrigatório.


Primeiro que a afirmação de que o aborto nestes casos é pecado é uma interpretação nada trivial. Um feto sem capacidade de pensar e agir por conta própria tem vida? É uma situação semelhante a de pessoas que por acidente ou doenças sofrem a "morte cerebral", onde o coração funciona, mas o cerebro não mais e são declarados mortos.


E o direito a vida da mãe, não está em ameaça?


Entretanto um fator ainda pode preocupar: Mulheres de fetos normais, podem, com a ajuda de médicos inescrupulosos usar de laudos falsos, dizendo seus fetos serem sem cérebro para provocar um aborto? Limpando assim o que seria ilegal?

Claro que neste caso, todos os envolvidos estariam cometendo crimes de várias naturezas, mas como a fiscalização no Brasil em muitas áreas é precária, acredito que seriam crimes impunes em muitos casos.

Em todo caso, voltamos a discutir: Podemos negar o direito de pessoas corretas para facilitar delito de outras?
E a discussão recomeça.


Minha preocupação em todo este caso é que uma discussão desta não se resume em ser a favor ou contra e precisa ter muita argumentação tanto de um lado como de outro.

Bem de meu lado, como cristão, pai de duas filhas e tendo passado por dois abortos espontâneos, devo dizer que aborto ainda que natural, é uma experiência bem ruim. Devo dizer também que espero mais oração das religiões que discussões armadas de pedras.

Se sou a favor ou contra? Como cristão daria o apoio a meu próximo que decidisse por uma coisa ou outra, afinal o principio fundamental do cristianismo não é nem o direito a vida e sim: “Ame o seu próximo como a ti mesmo. E não há mandamento maior que este” Marcos 12:31.

Pintar as mulheres que optam pelo aborto nestes casos como matadoras de crianças é colocar ainda mais peso a estas almas sofridas.

Acho que agora você pode me dizer: Você é a favor ou contra?

(*) Neste texto usei o termo “sem cérebro” ao cientifico “anencéfalos” para ser mais didático.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Wallace Collection, bixo !

Sobre o que agente ta falando mesmo?


Agente tá falando de um compacto de vinil da banda Wallace Collection.
A Wallace Collection é uma banda Belga de Rock Progressivo que surgiu nos anos 60, acabou nos 70 e voltou em 2005, belga sim, mas o disco é ingles. É um rock progressivo muito paz e amor, um questionamento bem ingênuo de mundo. A parte instrumental é formada por: Violino/Violoncello/Contra Baixo/Guitarra e bateria.
Este vinil é muito legal. É um compacto duplo. Compactos eram discos de vinil pequenos, com uma (compacto simples) ou duas (compacto duplo) músicas por lado. Em geral eram oferecidos no mercado antes do lançamento do LP (discão) e alguns ficavam só no compacto mesmo, não atraiam o público e perdia-se pouco investimento.
Os caras tiveram a manha de gravar o disco de estréia no badalado estúdio Abbey Road e diz a lenda que o nome da banda seria outro, mas já existia uma banda com aquele nome e decidiram de última hora mudar o nome para o de um museu, o tal Wallace Collection.

Como e quando o vinil chegou nas minhas mãos?


O disco original foi dado pelo meu tio João para minha mãe em 1969 e eu ouvi muito este disquinho. Ouvi tanto que furou – é, isso acontecia as vezes, então recentemente comprei um em melhores condições no Mercado Livre. Com capinha e tudo, o de minha mãe, não me lembro de ter capa.

Porque o vinil é mais legal que o CD?


Não deve existir CD, mas se existir, quem liga? O meu vinil compacto tem quatro faixas (veja Box abaixo)

Porque eu acho que você deveria tê-lo?


Rock progressivo você já ouviu, com flauta e outros instrumentos, mas com essa formação de naipe de cordas é mais raro e a levada totalmente hippie é o que há.
É trilha sonora pra Kombi !

Além deste...


Não tenho mais nada da Wallace Collection, tentei ouvir outras coisas, mas não despertou tanto interesse como o compacto Daydream.
Talvez seja a ligação com a infância, mas é puro paz e amor bixo !
Tenho outros compactos mais ou menos importantes e talvez conte sobre eles...


Olha só, o vinil completo Daydream pode ser encontrado no Youtube.

Lado A
Daydream.  

E quem vai dizer que foi o Queen que inventou o videoclip? Olha a Wallace Collection em 1969 brincando de fazer um negócio meio Hair. É o grande hit do grupo. Tenho a nítida impressão que Janis Joplin fez parte deste corpo de baile.



Laughin Cavalier 

Um estilo um pouco mais viceral, lembra um toque de caça, algo assim.




LADO B

Fly me to the earth  

Os caras fizeram uma brincadeira com fly me to the moon do Frank Sinatra. Na época da gravação e lançamento deste disco, as Apollos percorriam os céus e os imaginários coletivos. A banda fala de um mundo feito de plastico, fora da Terra. O cavanhaque do vocalista/guitarrista alias parece mesmo de plastico.


Baby I don't mind.    

Uma atitude mais rock n' roll. Bem light. Uma espécie de surf rock progressivo belga.





Para saber mais: 

Site oficial do grupo: http://www.wallacecollection.net/
Site do museu que emprestou o nome pro grupo: http://www.wallacecollection.org/
O que tem no Wikipedia sobre eles: http://en.wikipedia.org/wiki/Wallace_Collection_(band)

Mais gente que curte este disco:


Dica do Bin: Vá aos sebos e compre coisas desconhecidas, podem ser raridades.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Queen - Greatest Hits I (Ou como começar a ouvir Queen)

Do que agente tá falando mesmo?



Agente tá falando de um disco de vinil totalmente incrível. O “Greatest Hits I” do Queen. O Queen surgiu no início da década de 1970, como uma banda de universitários que queriam fazer shows com maior interação com o público, uma coisa meio teatralizada e arranjos mais elaborados. A banda fez um relativo sucesso em seus dois primeiros discos, mas conseguiu emplacar mesmo no terceiro disco, com a música “Killer Queen”. O quarto foi o disco que fez a banda despertar o respeito de todos, com o irreverente título “A night at the Opera” e faixas muito bem trabalhadas – Alias, tem uma faixa que ninguém se lembra “The prophet song”.
No início da década de 1980, para comemorar 10 anos de carreira, a banda lança um disco relembrando seus maiores sucessos, o “Greatest Hits” (que posteriormente ganhou o número I para diferenciar os que seriam lançados posteriormente II  e III).
Um monte de bandas fez e faz isso, lançar discos com coletâneas de sucessos, mas em 10 anos de carreira, o Queen colecionou uma lista de 14 faixas muito compactadas em um único vinil. Bandas como os Beatles é bem verdade, no mesmo intervalo de tempo formaram um duplo de sucessos.
Na época dizia-se que este disco marcava o fim da banda, pois interrompia o lançamento anual de inéditos, mas, como todos sabem, ainda viriam “Radio Gag”a e outros mega sucessos.
O disco abre com a opera rock apocalíptica “Bohemian Rapsody” que é uma das faixas mais importantes do Rock pós Beatles, a organização de faixa a faixa é muito coerente e o disco com quase 1 hora de boa música encerra com a quase-valsa autolouvativa “We are the Champions”.E depois de ouvir este disco você tem mesmo é que concordar que os caras são mesmo campeões.
Na historia da banda, este disco coleciona os sucessos com características muito próprias. Por exemplo, em quase todas as faixas, exceto “Good old fashioned lover boy”, não há participação de nenhum músico externo, ninguém fez uso de sintetizadores e apenas um piano elétrico é usado em “You is my Best friends”, no mais é a banda, com seus instrumentos e suas vozes se revezando num disco que, apesar de ser estúdio,  tem um gosto de ao-vivo.
Estas características se perderiam na fase seguinte, onde outros músicos apareceriam, ainda assim sem perder a qualidade, mas com uma orientação maior ao estúdio.

Como e quando o vinil chegou às minhas mãos?


Me lembro muito bem. Comprei numa loja que não existe mais chamada Marquinho som no mini-shopping aqui em minha cidade. Eu trabalhava de faz-tudo numa escola de computação, fui até a loja, vi o disco e não tinha dinheiro suficiente para comprá-lo. Juntei  um dinheiro, voltei lá e comprei o belo disco de capa preta, com os músicos – Dos quais eu só conhecia o lendário Freddie Mercury – na capa.
Levei o disco até a escola, onde um amigo me disse, apontando a faixa “Bohemian Rapsody”, você vai gostar desta música. E ele tinha razão !
Levei o disco para casa na mochila e de bicicleta.

Porque o vinil é mais legal que o CD?


Olha, nem sei se existe CD deste disco, mas se tiver merece ser ignorado. O disco tem um grave absurdo e se você não atenuar um pouco pode até fazer a agulha pular. Merece ser ouvido com cuidado. O encarte é mínimo com a reprodução da capa de cada disco do qual foi retirada a faixa. A foto dos integrante também só faz sentido no tamanho de 12 polegadas. E a duração que quase 1 hora é o que vale. Como curiosidade, a foto de Brian May dá para se ver seu rosto inchado por uma extração dentaria ocorrida dias antes.

Porque eu acho que você deveria tê-lo?


Se você não conhece o trabalho do Queen – o que só se justifica se morou em Marte pelos últimos trinta anos – é um ótimo ponto de partida. Se conhece as coisas espalhadamente, vale pela coerência da coletânea e se é fã, sabe que é o conteúdo de um show, mas feito em estúdio.

Além deste...


Eu tenho toda a discografia do Queen, tanto em Vinil, quanto em CD. O Queen tem um importância muito grande em minha memória musical, por isso voltarei a postar outros vinils do Queen na coleção.


Duas memórias sobre o Queen

Eu me lembro muito bem do radio AM/FM que tinha em casa. Um radio relógio Philco/Ford com números enormes e iluminados que giravam mecanicamente. A chave se mantinha em geral no AM, tocando as músicas brasileiras da época.
Um dia um amigo da classe me disse para experimentar ouvir FM que  “toca umas músicas diferentes”.
No momento em que mudei o AM para FM, ouvi a frase – “General KALA, Flash Gordon aproaching” – “What do you mean? Flash Gordan aproaching! Open fire”
Fiquei boquiaberto, a música diferente era realmente diferente ! Ao final a radialista disse – “Ouvimos com o grupo Queen, Flash trilha do filme Flash Gordon!”
Por quase 10 anos procurei reouvir esta música, mas só consegui quando comprei o “Greatest Hits”. Valeu a pena esperar.

A primeira vez que coloquei o disco para tocar, eu ainda não havia ouvido “Bohemian Rapsody”. Coloquei uns fones de ouvido gigantes que tinha em casa e coloquei para rodar – “It’s a real life, it’s Just fantasy...”.
Tudo ia muito bem, até que a parte operística entrou – “I can see a litle siluate of a man”.
Meu cérebro entrou em parafuso, nunca havia escutado nada parecido antes. As vozes, o instrumental, tudo me pareceria um rompimento com o que eu sabia de música anteriormente.
A música se acabou, entrou a segunda faixa, a terceira e eu pensando naquela experiência que eu tinha sentido.
O efeito BohRap só passou lá pela quarta faixa.
Até hoje tenho um mega respeito por BohRap. Acho que poucas pessoas conseguiram colocar o subconsciente numa música como fez Freddie nesta música. Eu só ouço BR em duas situações: Quando executada em radio ou quando eu faço por merecer – “Hoje eu fui legal, vou ouvir Bohemian Rapsody”. É minha medalha de escoteiro pessoal.

quarta-feira, 9 de março de 2011

E terminei a leitura de "Minhas duas estrelas" de Pery Ribeiro

Tá, foram meses lendo, o que não quer dizer que a leitura fosse tediosa, muito pelo contrário. É que eu sou lento mesmo para ler. Gosto de ler em momentos de solidão e com a mente bem livre e tenho descoberto que estes momentos são cada vez mais raros.




Mas a leitura do livro "Minhas duas estrelas" rendeu uma ótima experiência de leitura.



Se você pretende ler este livro, aqui vai um alerta. Não espere encontrar uma biografia tradicional, daquelas em que se segue uma linha cronológica, onde mantêm uma constância literária, onde tudo é minuciosamente explicado como uma dissertação de mestrado e principalmente onde o autor praticamente não aparece na narrativa, como acontece, por exemplo, em "Chega de Saudade" de Ruy Castro.



Se você leu o livro de Ruy Castro e espera encontrar um livro parecido no livro de Pery, por ter o prefácio de Ruy Castro, mude de cabeça, senão você não vai curtir esta narrativa.



É um livro de memórias, de ricas memórias do autor, contando a sua visão intima de dois mitos da música brasileira - Dalva de Oliveira e Herivelto Martins.



É uma narrativa de um filho contando sua vida permeada pelos pais e não o contrário, tanto que o título abre como "Minhas...", mostrando que o centro é o autor e filho.



Não existe linha cronológica, ora se vai para frente, ora se volta, o que a certo ponto pode causar algumas confusões mentais. Mas entendendo isso fica evidente que o que permeia a narrativa são os sentimentos acima de qualquer cronologia.



A leitura é simples, direta, mas muito doida. As experiências de filho são narradas com uma crueza impar. Por vezes eu me perguntava por que se expor tanto assim? Em dados momentos eu sentia estar lendo uma biografia não autorizada de tamanha auto-exposição.



Mas ao chegar ao fim do livro o que senti é que aquele papo que começou em Maio na mesa do Casarão da Cultura, se prolongou por estes meses, onde uma pessoa abre todo seu coração para o seu melhor amigo!



Sinto que sou agora o melhor amigo de Pery.



O ápice do livro acontece no capitulo 48 ("O amor enrustido"), onde tudo se resume. Os capítulos 49 e 50 complementam este ápice e em era de twitter e informação condensada, diria, com toda dor no coração que merece, que estes capítulos resumem à narrativa.



Uma critica a capa que traz a informação "A história dos personagens da minissérie Dalva e Herivelto...", uma aberração, a minissérie, apesar de bem produzida, contou muito pouco, quase nada e além disso essa capa coloca a minissérie como o centro dos acontecimentos, tanto Dalva, Herivelto e Pery tem luz própria. Algo como "A história de Dalva e Herivelto também narrada na minissérie" talvez fosse menos vendável e mais correta.



Um errinho único que detectei é que há uma citação a capa do livro, mas da primeira edição o que não confere com a capa da segunda. Isso acontece no final do livro, mas é um erro sem importância alguma, tanto que nem anotei a página em que ocorreu.



Não concordo com algumas análises da obra de Herivelto, mas quem sou eu para discutir com o filho e músico talentoso Pery, talvez a minha visão é que seja demasiada míope e precise de ajustes.



Bom, é isso: Uma ótima leitura, mas aconselho a pessoas que conhecem, ainda que um pouco, da história dos dois, que ouvem as composições de Herivelto com ou sem Dalva, que ouvem Dalva de compositores, com o Trio de Ouro e em carreira "Solo".



Uma boa partida é o programa Ensaio da TV Cultura com Herivelto que tem uma interpretação emocionante de "Ave Maria no Morro". Depois de uma olhada na Série da Globo para se situar e leia o livro.



Por falar nisso, Herivelto compôs duas músicas que são muito conhecidas fora do Brasil com suas letras em Castelhano: Caminhemos virou Caminemos e foi gravada pelo Trio Los Panchos lindamente e "Ave Maria no Morro" virou "Ave Maria no Morro" mesmo e foi gravada até pelos Scorpions (veja aqui).

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Porque Ultraje a Rigor? (ou por onde andará Joshua Hogler?).


Sobre o que agente tá falando mesmo?


Agente estamos falando de um álbum histórico da banda de Rock Ultraje a Rigor, lançado no início dos anos 90. A banda, que todo mundo conhece, com sua critica acida a sociedade em geral, surge nos malucos anos 80, num pais sul-americano que tenta viver sem censura e encontrar seu caminho, depois que tem seu primeiro presidente civil ainda que eleito indiretamente morto por problemas intestinais e um senhor de bigodes que tenta desesperadamente tirar o país de uma hiperinflação usando métodos também intestinais.

Na terra da carroça do Collor, eleito e deposto pelo povo (agente não sabemos escolher presidente), o Vinil começa a deixar a cena e alguns mais abastados começam a ouvir musicas em CDs.

Neste contexto, o Ultraje faz uma ótima festa de despedida ao Vinil e a década, com o que ficaria entre seu terceiro e quinto disco. O álbum “Por quê  Ultraje a Rigor?”. O “Por quê ” é um álbum nada convencional, não é sempre que uma banda ou artista, resolve de repente lançar em um único álbum a lista de todas as suas influencias. Poucas foram as que fizeram isso e a formula ainda hoje é rara.

O “Por quê ” tem de tudo um pouco: De vinhetas de programas como “Os monstros”, a uma interpretação, pra mim definitiva de Bárbara Anne dos Beach Boys, “Quatro Cabeludos” do Roberto e Erasmo e “Mauro Bundinha” a primeira musica do grupo.

O que tem de legal em tudo isso? É, na época assumir uma tiatagem a Roberto Carlos não era exatamente ser popular entre o publico Rock n Roll, e talvez não seja até hoje. Beatles todo mundo sabe o nome dos quatro integrantes de cor, mas fale o nome dos integrantes dos Beach Boys, sem consultar no Google! Isso é legal ! A partir deste disco você vai ouvir estes músicos com outros ouvidos.

Outra coisa genial e rara em discos, é que o encarte trás os acordes das músicas. Ta, hoje é fácil procurar no Google qualquer tablatura, mas pense em 1992 que nem Celular existia direito! E outra coisa genial é que só tem os acordes e não tem os tempos. Pra juntar tudo precisa um pouco de experimentação.

O encarte da capa é assinado por Joshua Hogler, profundo conhecedor da historia da banda e trás um resumo da historia da banda até ali. E tem a famosa história de porque a banda se chama “Ultraje a Rigor”? Na época era pergunta obrigatória de entrevistadores desavisados – “Por quê  Ultraje a Rigor”? E neste encarte está a historia para ninguém mais ter duvida. Não acredito que as perguntas tenham diminuído, mas ta lá, inclusive para orientar os calouros a roqueiro como batizar sua futura banda de sucesso.

Apesar de não ter sido o disco mais vendido da banda, cerca de 90.000 exemplares e não ter emplacado nenhum hit nas rádios, nem ter musica em abertura de novela, o “Por quê ” é um disco de festa de despedida do Vinil, é uma banda que sempre prezou pela simpatia abrindo sua memória e mostrando pros garotos: - Olha, nós crescemos ouvindo isso, vendo estes programas na TV, imitando essa gente. Vão por este caminho, reinterpretem suas influencias que vocês vão longe.

Talvez poucos tenham aprendido a lição e pouco rock se fez depois disso, mas a lição ta aí para quem queira aprender.

Mas afinal, quem é Joshua Hogler?

Talvez, depois de respondido “Por quê  Ultraje a Rigor?” A pergunta agora seja “Por quê  Joshua Hogler?”

Como e quando o vinil chegou nas minhas mãos?


Comprei no Sebo Historia, atualmente “Outras historias” em Rio Claro, não sei a data exata em que comprei, mas deve ter sido por volta de 1999 quando eu quase que diariamente este sebo a procura de coisas interessantes. Foi comprado em ótimo estado, todo plastificado. Usei muito, mas ainda está muito conservado.

Como este disco mudou minha cabeça?


Antes dele eu não tinha muita noção da importância de bandas como Beach Boys e o próprio Roberto Carlos pro Rock Nacional. Foi procurando de onde vinham as músicas deste álbum que cheguei em muita raiz. Outra coisa legal foi acompanhar na minha guitarra os acordes do encarte. Toquei muito com este disco rolando.

Por quê  o vinil é mais legal que o CD?


A vantagem do CD é que tem a faixa “Slow Down” versão gripada, que hoje você pode ouvir na própria pagina do Ultraje, de resto este é um álbum de despedida do Vinil e deve ser ouvido como tal. O lado A abre com a vinheta de “Os monstros” e o lado B abre com a vinheta de “Walk Right Back”. E ao fim de Twist and Shout você tem de tirar o disco e colocar o lado B. Isso parece pouco hoje, mas tem um sentido quase zen de você estar próximo ao disco quando ele começa. Isso tudo sem contar que disco pula, arranha e tem uma sonoridade própria para o objetivo do disco. E tem até uma brincadeira que não fará sentido nenhum no CD. Ao final do lado A e B tem um ruído como de arranhão, isso no CD é quase como legenda em filme Pornô.

Por quê  eu acho que você deveria tê-lo?


Se você é fã do Ultraje, você já deve ter este álbum na sua coleção, então não vou receitá-lo, mas se você pretende montar uma banda de rock ou gosta de tocar sua guitarra e cantar, esse disco também deve constar de sua coleção, pra ver um pouco dessa atitude rock&roll de protestar, reclamar, mas não perder o bom humor e nem a inteligência. É um guia para você procurar o que influenciou o Rock Brasil e que em geral é escondido, como Roberto Carlos, Beach Boys e musica de TV. A contracapa assinada pelo tal Joshua Hogler é um compendio que deveria se chamar: “Tudo o que você precisa saber sobre uma banda de Rock”. Do visual, passando pela atitude, até a escolha do nome. Impossível você ouvir este disco, ler seu encarte e não pensar em ter uma banda.

Além deste...

Além deste, eu tenho toda a discografia em Vinil do Ultraje e a maioria dos lançados em CD. Destaco o excelente Acústico da MTV e o obrigatório “Nós vamos invadir a sua praia”. Tenho o CD “Dois em Um” devidamente autografado. Citei lá em cima o Spaghetti que segue a mesma linha de entregar as influências da banda e pelas mesmas razões, recomendo. Entretanto, o encarte do Spaghetti é bem pobre! Falarei deste em outro POST. Existem outros discos que são despedidas do Vinil e alguns saudosistas que talvez escreva mais a frente.


Das duas vezes que encontrei Roger Rocha Moreira pessoalmente.

Cena 1.

Estou eu andando, carregando caixas na Condex 1988, acredito, quando esbarro com um cidadão louro, com uma trança que vai até a cintura. Foi uma cacetada e tanto. Parei pra pedir desculpas, ele disse sorrindo – “Vai ficar ruim pra tocar guitarra, mas eu dou um jeito, HEHEHE – Que nada não foi nada não e vc ta legal?” – “Não tudo bem. Falou, falou !” respondi e segui o caminho.

O cara que tava comigo – “Você viu quem era? O Roger do Ultraje”.

Cena 2.

Inicio de 1996 e eu preciso fazer umas entrevistas com usuários de uma novidade que estava surgindo no mercado brasileiro, a Internet, pro meu curso de redes do mestrado. Entrei em contato com algumas BBS (tipo provedores da época) e poucos usam o recurso, algumas acham que é uma moda passageira, até que entro em contato com a Mandic de São Paulo. Eles me recomendam mandar uma mensagem para um usuário deles que por falar e escrever muito bem em Inglês, era o primeiro a usar o recurso. O nome “Roger Rocha Moreira”! Me arrepiei em ver a resposta à minha mensagem ser respondida rapidamente “Se quiser mandar as perguntas por email eu te respondo rapidinho, se quiser ligar pro estúdio estou por lá tal horário”. Perguntei umas coisas por email, mas não resisti e liguei. “Oi, eu sou o cara que derrubou umas caixas de computador há uns anos atrás em você na Condex e não te reconheci!” – “Essa cena deve ter sido ótima, queria estar lá para ter visto, o que você precisa?”. O trabalho ficou perdido em alguma prateleira do professor e posteriormente deve ter ido pro lixo, mas naquele papo fizemos algumas previsões que estão se concretizando hoje, como você poder entrar em contato com seus ídolos diretamente.

Meus discos de Vinil preferidos: A série.

Não sei exatamente quantos discos de vinil eu tenho e não sei exatamente sobre quantos vou escrever, mas vou inaugurar uma série de Posts, sobre os discos de Vinil que tenho e que me acompanhariam a ilha de Lost, se lá tiver um toca discos de Vinil.

Você pode concordar ou discordar da minha lista, pois é uma lista pessoal. Mas tenho certeza que minhas opiniões serão compartilhadas por mais habitantes desta aldeia global.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Autografo

Michelangelo, você sabe muito sobre ele: sua obra, aspirações políticas, ele e o papa, tendências sexuais, tudo. Mas não pode falar do cheiro da Capela Sistina. Nunca esteve lá, nem olhou aquele teto lindo. Nunca o viu.” – Trecho de um dialogo do filme Gênio Indomável

Eu me lembro bem da primeira celebridade que conheci pessoalmente, mas por ironia, não me lembro quem era. Me lembro da situação: Meu pai que trabalhou algum tempo em uma radio difusora em nossa cidade, quis que eu conhecesse o estúdio da radio local. Conhecemos o estúdio e um artista estava sendo entrevistado e nos deu um “oi”. Meu pai sempre dizia quem era ele, mas confesso que não me lembro, posso até perguntá-lo agora sobre isso, mas prefiro não fazê-lo, porque seu nome é o menos importante. O importante é que naquele instante nasceu um sentimento que me acompanha até hoje e que se renova de vez em quando. O momento de conhecer uma pessoa que admiro e ganhar deste um autografo.

Existe algo de mágico de receber um autografo. O primeiro que recebi foi do poeta intinerante Roraima Alves da Costa, um poeta que viaja (ou viajava, perdi contato) pelas escolas do Brasil vendendo seus livros de poesia e em conseqüência, autografando-os. Tenho o livro até hoje, muito bem guardado e vez por outra o leio. Este foi o único autografo que recebi antes de conhecer o trabalho de alguém. Sempre procuro autografo de pessoas que admiro muito. Depois deste primeiro, vieram: Mauricio Pereira, Kika Seixas, Roger Rocha Moreira, Prof. Antonio Marmo, Inezita Barroso (que autografou um pedaço de papel de serviço), Pena Branca, Xavantinho, Renato Teixeira, Pedro Cameron, Caçulinha, Braguinha (não o compositor de Carinho) e finalmente, ontem Pery Ribeiro.

Eu já tinha tentado vê-lo outras vezes que ele veio até minha cidade, mas nunca havia conseguido. Ontem, com um pouco de atraso, fiquei sabendo que ele estaria autografando o livro “Minhas duas estrelas” na abertura da exposição em homenagem a sua mãe Dalva de Oliveira. Eu já queria comprar o livro, porque sempre fui fã de Herivelto, de certa forma, até mais que minha co-conterrânea Dalva. Não que tenha algo contra sua voz clara e afinadíssima, inspiração para toda a minha família de músicos, mas o ato de compor e arranjar e tocar ao violão sempre foi o elo que me interessou e por isso Herivelto com suas mais de 700 composições sempre me atraiu profundamente. Assisti com certo desprezo a mini série Global. Não desprezo pelos atores, figurino ou produção, mas pela falta de música na mini-série e historias destas. E pela polarização característica das tramas globais, onde bom é bom e ruim é péssimo!

Pois fui lá. Comprei o livro, olhei a exposição e, enquanto aguardava o inicio dos autógrafos, um grupo fez uma entrevista, de uns 40 minutos com ele. Fiquei a cerca de 10 metros de Pery. Quase tudo o que foi perguntado e o que ele respondeu eu já sabia e quase poderia responder a entrevista por ele. Mas não poderia. Aquele homem de pele morena, cabelos cacheados olhos verdes, transmitia algo que por mais que eu o conheça, eu ainda não o conheço.

Ele transmite uma calma, uma alegria e uma felicidade, seus olhos brilham cada vez que sua voz melodiosa, pausada e forte pronuncia as palavras Dalva e Herivelto, Mamãe e Papai. Um senhor que afirma ter passado por cima (literalmente) de Silvio Caldas e Nelson Gonçalves para poder chegar ao ônibus escolar, quando estes dormiam em suas casas. Este brilho nunca havia visto pela TV.

- Você sabia que ele foi o primeiro a gravar Garota de Ipanema? – Disse um senhor para mim. Mas não pude responder. Eu só conseguia ouvir as historias que Pery Ribeiro contava para a equipe de reportagem e indiretamente para mim.

Fiz algumas fotos, tentei não usar o flash, mas ele disparou por acidente e ele olhou fixamente para mim.

Algumas pessoas estavam impacientes que a entrevista se estendia, mas eu ficaria ali ouvindo suas palavras mansas. Palavras de quem passou pelos melhores momentos da Música Popular Brasileira e tem consciência disso.

Eu queria ouvi-lo cantar. Mas pelo que me informaram a noite seria apenas de autógrafos.

Quando chegou minha vez, só pude dizer meu nome, seguido de um – “Por mim, ficaria a noite toda ouvindo suas historias, a entrevista foi deliciosa!” Queria dizer mais, queria dizer que o admirava como cantor, que admirava o pai dele como compositor, sua mãe como interprete, que “Ave Maria no Morro” cantada pelo Scorpions me fez conhecido na Internet, que eu tenho o disco do Trio Los Panchos com Caminhemos, que meus avós conheceram Vicentina e muito mais, mas a sinusite e o momento não foram pra isso.

Peguei meu livro e disse apenas – “Um prazer enorme conhecê-lo!”. Ao que ele me respondeu com um sorriso – “Prazer todo meu!”.

Este homem que conheceu o cheiro dos que eu admiro de ouvir, ler e ver fotos, me presenteou com um pouco de sua existência, uma assinatura num papel com seu próprio cheiro, sua leitura dos fatos, sua própria musica e sua felicidade.

É há algo de mágico nos autógrafos.

Obrigado, Pery.